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Mas
afinal, que dia é esse? Que dia é esse que nos faz
tremer, suar frio e o coração bater mais forte?
Que nos faz sofrer sem dor? Que nos faz temê-lo e,
ao mesmo tempo, ansiar pela sua excitante chegada?
Que dia é esse que nos extrai o sangue, o suor e até
mesmo nossas lágrimas? Que faz nossa
individualidade ser completamente absorvida pelo êxtase
coletivo?
“A minha alegria atravessou o mar e ancorou na
passarela
Fez um desembarque fascinante no maior show da
terra"
Ilha, uma extensão de terra cercada de água por
todos os lados. Por isso, todos os anos, a minha
alegria atravessa o mar e ancora na passarela para
fazer seu desembarque fascinante no carnaval! Foi
também atravessando o mar que os negros africanos
nos trouxeram sua alegria – é claro que não nos
referimos às condições degradantes a qual foram
submetidos no processo de escravidão, e sim ao caráter
festivo dos povos africanos – e ancoraram por aqui
toda a sua ancestralidade cultural.
Artífices de “mãos cheias” que talham, trançam,
esculpem, pintam e forjam como poucos. Além das
tradições plásticas, orais como o “griot”
(pai do enredo) que narra as histórias de seus
antepassados, e musicais como seus batuques, ritos e
instrumentos. Música para a magia, para a fé, para
o amor, para a guerra, para os homens conversarem
com seus deuses...
Tambores, atabaques e afins, unindo-se aos cânticos
e louvores. Suas Nações e dinastias vindas de várias
partes da África, clamando por Olorum ou por Alá,
fizeram o desembarque fascinante de suas culturas
para lançar em nossa terra a semente que germinaria
o maior show do planeta.
“Será que eu serei o dono dessa festa?
Um Rei no meio de uma gente tão modesta*”
Espalhando seus cantos, danças e crenças, a força
do trabalho negro embalou nosso mestiço país
menino. Das sonoras noites nas senzalas nasce o
lundu misturado aos bate-coxas e umbigadas,
estimulando a imaginação dos moradores da
casa-grande. Com a chegada gloriosa do batismo cristão,
ganhou-se o domingo para as festas e batucadas após
a santa missa matinal, bem alinhados em roupas
coloridas e vistosas. Festejos negros em homenagem a
santos católicos florescem e, desta união sincrética,
vão aparecer cerimônias, autos e embaixadas.
Coroações de Reis e Rainhas com seus séqüitos
reais, misturando hierarquia africana com monarquia
portuguesa em cortejos processionais. Muitos
continham dramatizações e encenações em seu
desenvolvimento, contavam e cantavam alguma história,
como um enredo. Modelos estes, aliás, seguidos até
hoje como formato de desfile pelas escolas de samba.
“Eu vim descendo a serra, cheio de euforia para
desfilar
O mundo inteiro espera, hoje é dia do riso
chorar*”
E o “cortejo” virou preferência na organização
da brincadeira de carnaval, em resposta à bagunça
agressiva do antigo entrudo português que
emporcalhava as pessoas e a cidade. Grupos e
comunidades se reuniam para desfilar fantasiados
pelas ruas. Espocam as Sumidades, Cordões e Ranchos
carnavalescos.
As “procissões” continuam, com o povo
fantasiado tocando seus instrumentos, cantando e dançando,
para misturar de vez as raças e classes. As turmas
e famílias com fantasias unificadas inspirariam o
surgimento das chamadas “alas” e as exibições
das luxuosas e engenhosas alegorias das Grandes
Sociedades influenciariam as escolas de samba na
construção de seus “carros alegóricos”, além
de nos presentear com a tradição das “comissões
de frente” como os mestres de cerimônia dos
desfiles.
“Levei o meu samba pra mãe de santo rezar
Contra o mau-olhado carrego o meu patuá
Acredito ser o mais valente nessa luta do rochedo
com o mar*”
Sob as densas fumaças perfumadas dos incensos,
rezado, benzido e iluminado pelas velas de cera dos
barracões de fé, o nosso bom e velho samba é
filho legítimo dos terreiros das religiões
afro-brasileiras, com seus Orixás e entidades,
herdando o misticismo, a musicalidade e a tradição
dramática de seus pontos e louvores.
Marginalizado e perseguido, é gerado, alimentado e
escondido nos fundos das casas das “tias
baianas” na Praça XI. Mas o samba vencerá as
dificuldades e ganhará força com o aparecimento
das primeiras “escolas de samba”, que traduzirão
em seus desfiles o histórico da influência e da
resistência cultural negra na miscigenação de
nosso povo.
“É hoje o dia da alegria
E a tristeza nem pode pensar em chegar*”
“É hoje!”. Assim exclamavam os negros nos
preparativos dos antigos congos. Os foliões
exclamam excitados para o grande momento, único e
decisivo, para o qual se preparam o ano inteiro: o
desfile de sua escola do coração. Revivem-se as
tradições dos antepassados com todos os seus
elementos se agrupando para compor uma só festa.
Das casas simples, das ruas de asfalto ou do alto
dos morros, sai a nobreza do samba. Trabalhadores
esquecem das dificuldades do cotidiano e têm seus
dias de reis e rainhas, ou damas e fidalgos; homens
e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres,
comungam a santidade deste momento ancestral que
corre nas veias de todos nós.
Da comissão de frente à velha guarda, a
expectativa para a hora da explosão de euforia num
misto de honroso dever e satisfação pessoal. A
felicidade é insulana e alegria é sinônimo de União
da Ilha do Governador, famosa pelos desfiles
coloridos e memoráveis que traçaram o caráter
apaixonantemente feliz da escola. É hoje o dia! A
azul, vermelha e branca evoca seu passado glorioso
rumo a mais uma conquista na construção de um
futuro de vitórias. Caramba, segura a marimba que lá
vem a Ilha!
“Diga, espelho meu, se há na avenida alguém mais
feliz que eu?*”
Duvido.
Jack Vasconcelos (Carnavalesco)
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
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ARAÚJO, Hiram. “Carnaval: Seis Milênios de História”.
Rio de Janeiro: Gryphus, 2003.
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Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.
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Janeiro: Civilização Brasileira, 1958.
FERREIRA, Felipe. “O Livro de Ouro do Carnaval
Brasileiro”. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
LAN (pseudônimo). “As Escolas de Lan” / Ilustrações
de Lan (Lanfranco Vaselli); texto de Haroldo Costa.
Rio de Janeiro: Novas Direções, 2001.
MORAIS FILHO, Melo: “Festas e Tradições
Populares no Brasil”. São Paulo, EDUSP, 1979.
MOURA, Roberto. “Tia Ciata e a Pequena África no
Rio de Janeiro”. Rio de Janeiro, FUNARTE, 1983
RIO, João do. “As religiões no Rio”. Rio de
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