A equipe da Campanha “Eu sou União da Ilha… mas quem não é?” esteve no barracão da nossa escola na última semana para uma entrevista exclusiva com o Carnavalesco Severo Luzardo. Confira o que rolou neste bate papo. 

Eu sou União da Ilha – Vamos começar falando um pouco da sua história. Sabemos que você veio de uma família ligada ao carnaval na sua cidade natal, Uruguaiana, e lá aconteceram suas primeiras experiências na avenida. Como foi esse começo de carreira?

Severo Luzardo – Meu pai foi presidente de escola de samba e minha mãe carnavalesca. Eu nasci nesse meio e desde sempre eu convivi com tudo dentro de uma escola de samba, passei por todos os departamentos e aos 15 assinei meu primeiro carnaval. A partir daí eu não parei mais, fazer figurino foi sempre muito importante na minha vida. Quando eu era criança, por exemplo, eu pegava aqueles soldadinhos de forte apache e simulava uma escola de samba com eles. Eu era focado em carnaval, desde criança eu só brincava com isso… mas eu não tinha consciência de que essa se tornaria minha vida profissional como veio a ser depois, que me tornaria um figurinista e um carnavalesco. 

Eu sou União da Ilha – E quando você estreou aos 15 anos ainda era brincadeira ou você já tinha a dimensão desse talento?

Severo Luzardo – Era uma paixão… Só que essa paixão se materializou para avenida nessa estreia. Aos 12 anos eu já desenhava as fantasias da escola, e aos 15 anos eu assumi naturalmente um desfile inteiro. 

Eu sou União da Ilha – Você  acha que esse começo precoce foi influenciado pelo histórico da sua família com o carnaval?

Severo Luzardo – Não… uma noite, quando eu tinha quatro anos, eu e meus pais estávamos passeando de carro e passamos por um ensaio de escola de samba. Eu perguntei à eles o que era aquilo e eles pararam pra me mostrar. Na mesma hora eu disse “eu quero isso, eu quero desfilar no carnaval”. Nós descemos do carro e eles perguntaram para as pessoas que estavam lá se era possível e todos acharam o máximo uma criança daquele tamanho determinar o que queria. Naquele mesmo ano eu desfilei de D. Pedro I com uma capa enorme e ali foi o meu primeiro encontro com o carnaval. Essa minha experiência, ao mesmo tempo,  ressuscitou a ligação que os meus pais já tinham tido com o carnaval no passado, tanto que no ano seguinte eles assumiram a nossa escola de samba, a Rouxinóis, que era a que minha família gostava. 

Eu sou União da Ilha – Você é um veterano das avenidas cariocas, tendo passado por diferentes grupos na Intendente Magalhães e no grupo de acesso na Sapucaí. Que semelhanças e que diferenças você apontaria entre os desfiles realizados nestes dois espaços?

Severo Luzardo – Muda muita coisa. As responsabilidades são muito maiores a depender do grupo: na Sapucaí você é muito mais exposto, tem muito mais visibilidade e as cobranças são maiores também… você tem que entregar o carnaval de acordo com expectativas muito maiores. Isso gera também uma dedicação e um comprometimento proporcional. Meu caminho no carnaval do Rio começou na Sapucaí com os grupos de acesso e depois eu quis fazer carnaval na Intendente Magalhães porque nem tudo é comercial nessa vida… e quando você tem paixão pelo samba, muitas vezes você tem que se doar. Até hoje eu ajudo a escola Acadêmicos do Dendê, já fui carnavalesco de lá inúmeras vezes, me apaixonei pela comunidade e pelas pessoas… vi pessoas crescerem ali, agora os filhos deles e por isso eu não cobro nada, mas é algo enorme que eu ganho em troca. A afetividade e o carinho que eu recebo daquela comunidade é incrível. E estas trocas você visualiza muito no carnaval da Intendentes, um carnaval que tem que existir… É um desfile de uma expressão popular do subúrbio, mas que é autêntico! As pessoas que estão ali tem uma paixão imensa por fazer carnaval, que pode resultar na chegada ao grupo especial ou não, mas que a gente não pode deixar morrer. A gente tem que estar sempre regando essa cultura que movimenta a estrutura central do carnaval.

Eu sou União da Ilha – Esse excesso de cobrança e expectativas impactou no processo criativo nesta chegada ao grupo especial?

Severo Luzardo – Não porque eu tenho uma liberdade muito ampla nessa escola…. A União da Ilha me deixou muito livre para criar. A única coisa que eu recebi da Uniao da Ilha que, digamos, poder ser considerado um limitador, foi uma realidade que me foi exposta logo na época em que eu fui contratado: uma dificuldade financeira que poderia haver mais à frente pela iminência de um cenário de crise nacional que acabou se concretizando. Como isso foi colocado desde o início,  a construção do carnaval foi toda pensada com materiais de grande visibilidade mas com custo menor, afim de que a gente viabilizasse o todo da escola de forma homogênea, com um carnaval de impacto que impressionasse. E eu acho que a gente tá conseguindo.

Eu sou União da Ilha – Sua estreia no carnaval do Rio foi pelo Boi da Ilha em 2004, depois disso você teve algumas passagens pelo Acadêmicos do Dendê e chegou a ser carnavalesco na Unidos de Aquarius em Cabo Frio, escola que deu origem à Nação Insulana. Esta íntima relação com as agremiações da Ilha do Governador ajudou na sua adaptação na União da Ilha?

Severo Luzardo – A minha relação com a Ilha do Governador é muito forte. O meu filho mais velho é morador da Ilha do Governador e desde quando o Thiago era criança e se manifestava nas ações culturais do bairro eu passei a conviver com a Ilha: nos colégios, nas festividades populares e através disso cheguei à minha primeira escola no Rio – a Boi da Ilha – depois no Dendê. Na verdade só faltava União da Ilha para coroar essa relação de amor que eu tenho pela Ilha do Governador. Mas essa intimidade não facilitou a adaptação. Quando eu cheguei na União da Ilha eu já tinha muitos amigos, e é muito mais difícil você fazer um trabalho para amigos que vão passar a te cobrar do que você fazer para estranhos. Eu senti um peso enorme daquela quantidade de gente que eu conhecia e que, ao invés de apenas me dar um abraço como o de costume, também passou a me cobrar… a responsabilidade é enorme, mas eu acho que a gente está se saindo bem até agora. 

Eu sou União da Ilha – Agora vamos falar um pouco sobre o carnaval de 2017. Qual a sua expectativa em relação à Nzara Ndembu?

Severo Luzardo – Nzara Ndembu já aconteceu na cabeça das pessoas… foi um enredo muito bem acolhido pelo Wilsinho (diretor de carnaval), pelo Ney, pela diretoria da escola no geral, depois pela comunidade… e foi apaixonante para os compositores. Esse sucesso acabou promovendo muito bem as fantasias, a comunidade está satisfeita com os protótipos…então podemos dizer que o enredo já aconteceu, ele já teve uma visibilidade que eu nunca tinha alcançado com outros enredos,  já até ganhou dois prêmios neste período que antecede o carnaval. Toda esse caminho proporcionou um samba maravilhoso, que diz muito sobre a essência desse carnaval e desse projeto que está sendo construído.

Eu sou União da Ilha –  Depois desse enredo e deste samba já coroado, Como fica a expectativa para o desfile?

Severo Luzardo – Bom, nós passamos por uma grande prova de fogo, a Festa dos Protótipos, que foi o momento em que nós demos a cara a bater para comunidade, em que nós estávamos apresentando ali o carnaval que será levado para avenida. Ali naquele momento, naquela noite que foi mágica, lembro que eu subi para o camarote para visualizar a entrada das fantasias e foi um dos momentos mais lindos da minha vida de carnavalesco… Ver aquela quadra toda com bandeiras na mão, cantando numa louvação aquele samba, com os olhos encantados. Aquele foi um momento genial, bem como depois as manifestações de aprovação.  As alas estão felizes, as pessoas estão felizes… eu acho que a gente está partindo para um carnaval em que a gente conseguiu tocar no coração desse componente, tocar no coração desse insulano que estava precisando se ver dessa maneira: com esse entusiasmo, com um samba lindo, com uma fantasia bacana. Agora nós ja temos o material que é o mais válido nessa economia do carnaval: o integrante feliz indo pra avenida defender a sua escola de samba.

Eu sou União da Ilha – As divindades tradicionalmente cultuadas pelos povos bantos não são tão populares no Brasil quanto às dos yorubas. Em função disso todo um trabalho tem sido feito com a comunidade para explicar o enredo e apresentar as inkises da mitologia bantu. Como foi esse processo?

Severo Luzardo – Vocês estão cobertos de razão quando dizem que a cultura Bantu não é tão popular, mas nós conseguimos abrir um leque cultural e social dentro da escola quando lançamos o enredo. Com a ajuda de um mestre nós fizemos algumas noites de conferência com a comunidade explicando, mostrando referências, levando informações sobre a cultura Bantu. Hoje, através da divulgação do enredo em rede sociais, tanto as de imprensa como as pessoais da comunidade, a gente percebe uma ampla divulgação dessa cultura Bantu e desse candomblé que é exercido e pouco difundido. Então com maestria, a união da ilha também conseguiu um viés muito cultural junto à comunidade no desenvolvimento desse carnaval da cultura africana de raiz brasileira. 

Eu sou União da Ilha –  Que estratégias vocês estão adotando para estender esta explanação ao expectador da Sapucai?

Severo Luzardo – O samba está muito claro, as fantasias estão de fácil leitura do que representam e, sobretudo, os carros alegóricos também ajudam muito. Acho que vai ser de fácil visualização. 

Eu sou União da Ilha – Como você concilia o trabalho de figurinista ao de carnavalesco?

Severo Luzardo – Eu sou movido pela paixão de fazer figurino, se eu não tivesse tanta paixão no que eu faço eu já tinha abandonado porque é muito cansativo. Eu viro noites fazendo novelas, fazendo cinema e fazendo carnaval… E quando eu volto pra casa, por mais cansado que esteja, eu tenho uma coisa que me nutre, que é fazer aquilo que eu amo, que eu cresci fazendo, fazendo coisas lúdicas que deixam as pessoas felizes com o resultado destes trabalhos.

Eu sou União da Ilha – Qual a diferença entre o figurino para novela e para o cinema e o figurino que é feito pra carnaval? Como é a dinâmica nesses dois mundos?

Severo Luzardo – A construção é a mesma, a gente respeita uma  sinopse, uma história e uma ambientação. A única diferença que eu vejo é que no carnaval nós não temos um ensaio, você não consegue ver o conjunto antes. No caso do cinema da televisão você tem um ensaio e ainda assim no momento você pode alterar. Aqui não. Você pode alterar até no último momento de entrar na avenida mas você não tem como corrigir porque não existe um ensaio com os carros, com a luz ligada, com os movimentos, com os destaques, com as fantasias, com a bateria tocando…. aqui é como se a gente fizesse todo trabalho até a beira da coxia do palco, e quando a cortina se abre não se tem mais o que fazer.

Eu sou Uniao da Ilha – Quando O enredo foi apresentado você falou muito de sentimento, que o carnaval tem que passar sentimento para as pessoas. Nós da comunidade percebemos isso desde aquele momento e seguimos assim nos ensaios que estão acontecendo semanalmente. Que sentimentos você acha que a plateia, seja pela TV ou lá na Sapucaí, vai sentir ao assistir o desfile da Ilha?

Severo Luzardo – É o que o enredo mais ou menos se propõe… tocar no coração das pessoas de uma forma bem sensível, muito subliminar, com uma estética agradável, com carnaval muito pra cima, elaborado com a intenção de ser luxuoso embora os materiais sejam alternativos. No conjunto final, quando passar o último carro da União da Ilha, espero que se tenha um sentimento de que se viu uma coisa muito bonita, dentro de uma psicodinâmica de cores estudadas, de uma ordem alinhada com uma programação visual agradável, suscitando no espectador a vontade de ver mais um pouquinho. Se a gente conseguir passar isso pode ter certeza de que a escola tocou os corações e fez um grande desfile. 

Eu sou União da Ilha – Podemos então esperar surpresas na avenida?

Severo Luzardo – Tem algumas surpresas que não foram apresentadas no desfile dos protótipos porque são muito fundamentais para que se conte essa história de maneira rica. Tem outras coisas que vão acontecer sim na hora do desfile mas que já estão sendo ensaiadas, praticadas lá mesmo na quadra e as pessoas não percebem. Eu já vejo algumas destas surpresas expostas ali e os outros não percebem porque os componentes estão sem as fantasias.

Eu sou União da Ilha – Que recado você quer dar ao componente da nossa escola?

Severo Luzardo – Meu recado é que ele se junte, que ele olhe para agremiação, que ele participe ativamente neste tempo que nos falta até o carnaval…A gente precisa desse abraço, precisa dessa energia para que o carnaval seja exatamente este sentimento forte que está sendo projetado. Então se a gente tem um componente presente, um componente atuante no canto, na dança e no gestual, teremos funcionando cada pecinha que foi projetada para construção desse carnaval, e aí sim vai dar certo.

Eu sou União da Ilha – Pra encerrar, em março de 2017, quando o carnaval passar, como você quer que o carnavalesco Severo Luzardo seja lembrado?

Severo Luzardo – Com saudade.

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